E se fosse proibido usar barba e bigode no trabalho?

Ontem o Sakamoto publicou um post muito legal (aliás, sempre os posts são, no mínimo, muito legais. Recomendo a leitura o blog dele) com o seguinte título:

E se fosse proibido usar barba e bigode no trabalho?

Em breves letras, o “ juiz Guilherme Ludwig, da 7ª Vara do Trabalho de Salvador, condenou o Bradesco por discriminação estética – no caso, por proibir o uso de barba pelos seus empregados. A decisão atendeu a uma ação civil pública do Ministério Público do Trabalho. A empresa já entrou com recurso. Confirmada a decisão, o banco terá que pagar uma indenização de R$ 100 mil por dano moral coletivo – o valor deve ir para o Fundo de Amparo do Trabalhador. De acordo com nota divulgada pelo Ministério Público do Trabalho ontem, a empresa também será obrigada a publicar durante dez dias seguidos no primeiro caderno dos jornais de maior circulação na Bahia e em todas as redes de televisão aberta, a seguinte mensagem“:

“O BRADESCO S/A, em virtude de condenação imposta pela Vara do Trabalho de Salvador, conforme determinação contida em decisão prolatada em ação civil pública proposta pelo Ministério Público do Trabalho na Bahia, registra que a Constituição de 1988 refere que são direitos de todos os trabalhadores brasileiros a preservação de sua dignidade e proteção contra qualquer prática discriminatória, especialmente aquelas de cunho estético, cumprindo salientar ainda que o BRADESCO S/A, ao reconhecer a ilicitude do seu comportamento relativo à proibição de que seus trabalhadores do sexo masculino usassem barba, vem a público esclarecer que alterou o seu Manual de Pessoal para incluir expressamente tal possibilidade, porque entende que o direito à construção da imagem física é direito fundamental de todo trabalhador brasileiro.”

Ótimo post. Mas fiz uma interpretação que até julguei louca. Resolvi ler TODOS os comentários, na vã esperança de encontrar uma interpretação semelhante ao que falarei brevemente.

Primeiro, essa idéia de associar barba à falta de higiene, a uma espécie de trangressão ou mesmo ao desrespeito ao código “velado” de aparência está impregnado no (in)consciente da maioria das pessoas. Acaba ganhando contornos costumeiros quase normativos a idéia da barba – ainda que mantida baixa – ao homem com pouco acesso à instrução,ou mesmo já encaminhando-se por caminhos de criminalidade. E não sou EU quem diz isso, mas as próprias opiniões de muitas pessoas que associam SIM a barba ao desleixo, falta de cuidado, graças a todo um arcabouço de valores implantados e que raramente são postos em xeque. Uma prova da banalização desse tipico conceito discriminatório é o próprio cartaz da campanha Começar de Novo, do CNJ (já falei disso aqui no sótão). O cartaz é taxativo: traz a foto de um homem, com o face com dois tons distintos: branco e negro. Ao lado da face branca, a palavra “trabalho”; ao lado da face negra, “criminalidade”. Além de mostrar a dicotomia maniqueísta branco-negro para simbolizar a diferença entre trabalho e criminalidade, a foto ainda deixa bem destacado o fato de o lado negro do rosto estar sem ser barbeado, em contraste com o a face branca escanhoada. Típico exemplo de como esse ideal estético é sedimentado a ponto de nem chocar as pessoas.

Segundo ponto que quero destacar: percebi que a maioria dos comentários são de homens. E pelo visto, a maioria entende justa a condenação do Banco Bradesco. Concordo com a condenação. O que me surpreende é ver que o homens – leia-se O estado, O poder judiciário – conseguem claramente como violação ao direito humano o ato de uma entidade privada em tentar exercer o controle sobre o corpo do homem (enquanto gênero), no caso, através da exigência de barba feita. E O poder judiciário não teve maiores dificuldades em condenar de forma exemplar esse tipo de violação. Enquanto isso, as mulheres são submetidas a uma série de formas de controle de seus corpos mas que, por serem mulheres, tal controle é sutilmente entendido como legítimo, válido e necessário.

Mesmo a questão dos pêlos, se for levada em consideração, tem valoração distinta para homens e mulheres. Nos homens, é tida como sinal de masculinidade etc, enquanto as mulheres são submetidas ao rosário do pêlo=sujeira.

 

***

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3 pensamentos sobre “E se fosse proibido usar barba e bigode no trabalho?

  1. Jux,
    você está certíssima. Além daquele rolê todo dos pelos, do mito de que pelo é falta de higiene (SOBRETUDO para mulheres mas, sim, também no caso das barbas), etc. tem essa questão: o corpo do “outro” é sempre mais passível de controle e exploração. Só que aqui o “outro” somos nós, mulheres.

    É muito triste sacar em momentos como esse que mesmo as leis, que muitos pensam ser neutras, são completamentes dependentes de uma interpretação que está diretamente ligada à forma de classificarmos e hierarquizarmos as coisas e, sobretudo, os gêneros. No final das contas, isso significa que as leis não são iguais para todos e só protegem um pequeno grupo de homens.

  2. Estou até surpresa que alguma empresa tenha exigido que alguém tenha que trabalhar de barba feita!

    Que coisa estranha…

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