Minhas Asas Feministas

Difícil estabelecer ao certo quando nasceu meu feminismo… não se foi quando eu me entendi por gente, ou se foi naquela noite, do mês de fevereiro, quando a lua escorpiana caminhava para seu aposento minguante…

Só sei que, sim, desde que me entendo por gente, fui criada livre. Eu e minhas três irmãs fomos criadas livres e sob o mantra “mulher tem que ser independente”. Sim, minha mãe é uma feminista, defende o  respeito ao trabalho feminino, o aborto seguro para que não quer gestação até o fim, a liberdade da mulher ir e vir, segura e livre, nua até se assim desejar. Ao mesmo tempo em que ela sempre arrumou nossos cabelos com laços e fitas enquanto crianças, junto com meu pai ela fazia pipa e nos comprava bicicletas – prata e vermelha, sem cestinha – para que pudéssemos desbravar aquele quintal que parecia gigantemente infinito…

Estranhamente, mesmo naquele tempo, talvez eu tivesse percebido que o mundo não era assim, tão gentil na liberdade para com as mulheres. De repente entendi que a sociedade espera da menina, a mulher-semente: nascer, crescer, “virar mocinha”, arrumar namorado, casar, ter filhos… envelhecer e morrer por conta da vida.

O tempo escorria entre os dedos, feito as areias de uma praia distante, em mares gelados… e eu crescia e via como tinha que se comportar “uma mulher, uma mocinha”. Pior, eu via como as mulheres eram tratadas como objetos sexuais, bastavam que fôssem mulheres.

De repente tive medo de crescer, tive medo de virar “mulher”, ver meu corpo se transfomar e com isso, ser alvo dos olhares dos homens, que então passariam a me enxergar como presa fácil, a ser agarrada e tocada, e assediada, molestada. Quando me tornasse “mulher”, deixaria eu de ser um sujeito de direitos para então estar sujeita aos direitos dos homens que achassem por bem exercê-los em minha identidade, violando minha soberania mais íntima.

E meu desejo de liberdade me fez fechar num casulo – do qual ainda me livro aos poucos. Sim, eu me escondia porque não queria ser apenas mais um corpo, não queria controle externo sobre meu corpo, não queria usar isso ou aquilo “porque é assim que as mulheres devem ser” e, principalmente, sempre sonhei em ser vista e admirada como um ser pensante, capaz de ter idéias e defendê-las.

Minha família, meu núcleo subversivo particular sabia que eu era um ser pensante… e lá fora?

Bom, lá fora, além de mulher, talvez fôsse apenas “uma neguinha”… sim, trabalhoso e doloroso ser mulher e negra, num país tão racista e severamente sexista… (mas essa é receita para uma outra longa tricotagem)

Tantas primaveras passaram, verões se sucederam um após outro, os outonos chegaram… mas foi num fim de inverno que já estava a  bater nas portas de uma nova primavera que encontrei alguém  que prestou atenção em minhas idéias, me ouviu. Ouviu por muito tempo, ouviu para sempre… Discutiu minhas idéias, e acrescentou outras idéias, aceitou minhas idéias e levou minhas ideias tão a sério que hojes elas correm o mundo, traduzidas em diversos idiomas, conduzindo conceitos sobre os quais tanto conversamos, refletimos… sim, seu legado maior para mim foi o amor sincero, a mim enquanto mulher e antes e sempre como ser humano inteligente. Tantas vezes repetiu como era estimulante uma mulher com idéias próprias, que essa era a beleza pela qual valia a pena empenhar tempo e dedicação, essa beleza que se tornaria mais radiante com o tempo, a beleza de olhos d’alma que vive intensamente, independentemente de uma calça tamanho trinta e oito ou um pseudo-namorado a tira colo … e essa era uma mulher que já naquela época lia Kundera…

Essa experiência mais do que especial foi o início de um longo despertar da consciência feminista. Não, não se tratava de competir com homens, ser melhor que eles… a essência era ser livre, para escolher, ser, viver. Esses segundos cósmicos tao preciosos confirmaram que seres humanos não são iguais, nem homens são todos iguais, assim como as mulheres não são todas iguais. E nesse milagre da singularidade, do saber o outro como a si mesmo como a única espécime representante de si mesmo semeou a certeza de que homens e mulheres podem e devem caminhar e construir juntos um mundo, com as cores que considerarem mais convidativas.

Mas ainda havia um longo caminho a percorrer. E foi nesse caminho surgiram as leituras feministas e tantos conceitos começaram a fazer sentido quando contrapostos com a realidade na qual minhas asas feministas ainda se esticam…

E há quem pense que leituras feministas são faceis: sinceramente não o são! As criaturas “ousadas” que abrem esses livros, que ouvem as vozes das mulheres que ousaram ser e lutar, engolem a tal “cápsula vermelha”, os olhos se abrem, a crueza dos dias dói, causa revolta, quantas vezes dá vontade de puxar a campainha e gritar bem alto “Pare o mundo que eu quero descer”. Baralho, esse mundo só pode estar errado!

Sim, há um tanto errado, mas ainda há um tanto possível que pode dar certo…

E esse eterno brincar de gangorra entre o que está errado e o que vai dar certo tem sido a parceria nessa jornada feita a pés descalços…

Escrever as palavras feminista nos lábio levou tempo, uma vez que o coração havia sido levemente contaminado por tudo aquilo que Faludi já havia dito: de onde viriam os clichês das feministas mal-amadas, mal-comidas, amargas que só fizeram por condenar as demais mulheres à eterna dupla jornada.

E hoje, tenho orgulho de dizer que sim, sou Feminista e para quem tiver o atrevimento de dizer que Feminismo é capricho ou que já não mais razão de ser, ou ainda, que a pauta esgotou, farei apenas lembrar que, apesar de tudo, ainda posso me considerar uma feminista privilegiada, uma vez que posso estar à mercê de práticas sexistas, mas tenho a plena consciência de estar “teoricamente” protegida do patamar mais violento que o machismo pode infringir à condição de vida e dignidade de uma mulher. E, enquanto escrevo essas linhas, vale refrescar a memória acerca do seguinte:

* casos feitos o da Geisy – é, a moça do vestido – tomam cena e mostram que a “sociedade” ainda entende ser válido julgar/condenar uma mulher tendo como pressuposto a violação de um código de moda socialmente imposto;

* dentro ainda da ótica perversa do aniquilar, mutilar, matar mulheres, relembrar os destinos trágicos impostos a Eliza Samúdio e Mércia Nakashima,  destinos esses escritos por aqueles que em algum momento se disseram seus companheiros, amores, amantes. Esses mesmos companheiros, por se entenderem proprietários e senhores de suas mulheres, de seus corpos, decidiram que era o momento de impor o cruel fim a cada uma delas e fazê-las desaparecer;

* lembrar que, durante essa crise, as mulheres foram as que mais perderam empregos;

* quando se sabe que, mesmo desempenhando as mesmas funções, fazendo o mesmo trabalho, homens ainda ganham mais que as mulheres;

* quando  se sabe que falar de igualdade política no Brasil é uma verdadeira piada, uma vez que – divulgado no Fórum Econômico Mundial de 2008 – “o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países, que as mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas e que do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres e isso tudo no Brasil, em que as mulheres são APENAS 52% da população”*

E hoje assumo que meu Feminismo não é para mim, mas em prol de centenas de mulheres, que não são representadas politicamente, que ainda são julgadas pelo arbítrio sexual que compete a cada ser humano deliberar, mulheres às quais não é assegurada a mínima dignidade. Meu Feminismo é para a mulher vítima da violência dentro do espaço do lar, numa inversão perversa do que deveria representar o lar enquanto refúgio para cada ser humano, o local onde ela poderia se sentir segura e que se torna o palco de um show de horrores que somente quem é vítima de violência sabe tristemente dimensionar.

Meu Feminismo hoje é pela provocação de quem está com o bumbum acomodado na hipócrita zona de conforto da banalidade, pois o mal, a crueldade velada, de tanto se repete, fica “naturalizada”, passando despercebido aos olhos de quem não sofre esse mal, e esse mal vira norma, e é encenado em novelas patéticas e  grotescos programas de “humor”.

Mais do que saber quando meu Feminismo começou, sei que meu Feminismo hoje nem é por mim, mas pelas mulheres que ainda não têm chance nem voz para se manifestar. Meu Feminismo é  principalmente pelas mulheres que tiveram as cordas vocais cortadas pelo medo, pela destruição da auto estima, pela objetificação de suas vidas…

Meu Feminismo é pelas Mulheres oprimidas, esquecidas, perdidas em seus medos… meu Feminismo é em prol dessas asas que todo ser humano, toda ser humana traz dentro de si, asas que podem ser escondidas, mutiladas mas nunca arrancadas. Asas que esticadas com coragem são capazes de mostrar aos sonhos o caminho para o reino da realidade, ainda que realidade sonhada, utópica, mas certamente um espaço no qual a única certeza seja a liberdade de ser quem se é e ser feliz ainda assim, mesmo assim, ainda bem que sim…

16 pensamentos sobre “Minhas Asas Feministas

    • Ritinha!
      então… eu até mandei um email pra Loláxima sabe… eu fiz o texto mas não tinha publicado! Shame on me!
      Tem uma menina que tb colocou texto mas não entrou no concurso… de repente, se a Fofaronovich abrir uma categoria tartarugas-atrasadas…
      beijukkisss

  1. adorei seu texto jux! no final das contas, acho que dissemos as mesmas coisas com palavras diferentes…

    vc se inscreveu no concurso da lola? se este post estiver na terceira etapa, com certeza terrá meu voto!

    um beijo🙂

    • Sim, existe um gazilhão de coisas pra mudar… mas o mais legal é buscar um equilíbrio sim, e concordo com você em parar a leitura pra não ficar com raiva… é como disse, N! vezes eu tenho vontade de pedir pro mundo parar pra eu descer…
      MAAAAS, algumas coisas doces da vida ainda trazem serenidade e cuidam da sanidade!

      Beijukkka bonita!

  2. Ah, pra quem me chama de Fofaronovich eu faço qualquer coisa… Vc tá dentro do concurso, Jux! Abri uma categoria Tartarugas Atrasadas Quase Parando!

  3. O texto é sensível, gostoso de ler, mas eu tenho duas considerações a fazer: Primeira delas… eu quero tua mãe emprestada! Segunda delas… quando sua mãe vier, quero que venha junto!

  4. Jux,

    Retribuindo a visita!
    Parabéns pelo maravilhoso post!
    Muito bacana mesmo!
    O “concurso” de blogueir@s tem sido incrível para conhecer mais blogs inteligentes e com conteúdo, como o seu!
    Voltarei, viu!
    Bjks!

  5. Pingback: Blogueiras Feministas.

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