Tapa na Cara

TV Globo / Zé Paulo Cardeal

é vergonha, eu sei… mas andei assistindo à famigerada opéra de sabão do MC… é… ele e suas histórias vividas nos recantos de Copacabana…

Confesso não me admirar em nadinha o fato de ele ter escalado a Taís Araujo para viver uma Helena na trama do horário nobless.

Depois que Obama se tornou presidente da maior potência do mundo, a situação se tornou algo do tipo “pega bem fazer uma média”, para tentar convencer de que não existe racismo no Brasil, afinal “oh! quantos protagonistas negros temos nas principais novelas brasileiras”!

É, em 40 e tantos anos de teledramaturgia parece ser um motivo de orgulho que mulheres negras sejam protagonistas. Mas infelizmente não tenho lá muita alegria não, uma vez que é phoda mesmo é ver “alguns” estereótipos ainda são mantidos.

Na novela das seis, por exemplo, a atriz negra no papel principal é uma faxineira.

Na novela das oito-quase-nove, a portagonista negra ficar querendo agradar a família (leia-se ex mulher e enteada) do marido, buscando ser aceita, e, no capítulo de hoje à noite, acaba por ser rebaixada a condição de escrava. Como disse uma comentarista “só faltou o tronco”.

Tudo porque tinha aceitado um compromisso impossível de “cuidar” de uma “marmanja” quase da mesma idade. Helena esqueceu que ela não era um elefante para ter um “bebe daquele tamanho/idade”.

Simples: se a garota era tão irresponsável, que mãe fosse junto, oras. É muito cômodo delegar a terceiro um tipo de responsabilidade que não lhe cabe.

Sem contar os ares de casa-grande-senzala que a cena dá: Helena, de joelhos, pede perdão (ai, caraca, por uma culpa que ela acredita ter bufff!!!) e a Teresa, com o ar superior e altivo, bem ao estilo “senhora do engenho”, desfere a mão rápida e pesada.

PODRE é saber que muita gente gostou da cena, não só aprovou como também crêem na culpa da persoangem Helena pelo acidente ocorrido?!?!?!!?

Helllooooo!!!

MAIS PODRE AINDA é todo esse estigma de culpa que a personagem Helena carrega: não basta se sentir culpada por ter feito um aborto (essa questão em particular merece um post só sobre isso), vai agora se amargurar por não ter engolido a falta de respeito da enteada. Dá licença!

Apesar de não querer perder tanto tempo falando desse tipo de tema – novela do MC, exibida pela plimplim – não posso deixar de criticart, uma vez que é lamentável saber que esse tipo de instrumento de informação tem um alcance absurdo dentro da sociedade brasileira e, ao mesmo tempo, é tão horrorosamente utilizado, especialmente para sedimentar e acalmar certos grupos, no que compete a segurança de seus privilégios e status quo.

Lastimável.

8 pensamentos sobre “Tapa na Cara

  1. tudo bem explanado e correto, mas faltou dizer: a tal protagonista é uma atriz tão ruim que você nota mesmo quando comparada com um canastrão do calibre do josé mayer.

    • Sabe, Gilvas, hoje, ao assistir uns vídeos de atuação dela, percebi que ela é uma boa atriz sim (depous postarei os links =) ). Claro, ela é sssúper jovem, um certo lance de inexperiência BUT o que definitivamente estragou foi esse papelucho do MC… mas fazer o que? elas SONHAM fazer novelas desse cara… c’est la vie!

  2. Uma correção. Antes de Viver a Vida e antes de Obama, claro, Taís Araújo já foi protagonista em outra novela. A novidade é ser uma Helena de Manoel Carlos e na novela das 21:00.
    Sobre a questão do aborto, se a personagem (não assisto a novela) sente culpa por ter feito, não fugiu da realidade. Muita mulheres acabam sentindo culpa após ter feito o aborto. Ou toda mulher que faz aborto fica feliz? Sou a favor da mulher ter o direito de escolha de manter ou não a gestação, mas contra esta campanha que toda mulher que faz aborto não pode sentir culpa. Sentir culpa independe da opinião pública e sim dela mesma. Não faço aborto por medo mesmo que fosse legal. E alguém ainda acredita nos 40% de audiência?????

    • Agradeço as correções – falhas de quem há mais de cinco anos não assiste mais taaanta Tv quanto agora. Assim, Luciana, quanto a questão da culpa em relação ao Aborto, certamente que muitas e muitas mulheres sentem culpa sim. Só que muitas e muitas mulheres NÃO sentem culpa alguma. Escolheram. Fizeram. Ponto. Não concordo com o determinismo de que toda mulher fica feliz ao fazer um aborto X toda mulher sente culpa por fazer um aborto.
      O fato de a “Helena” sentir culpa é lugar comum, porque, de certa forma, é isso que a Sociedade (leia-se telespectadores) espera: é esperado da mulher que chore, lamente, sinta culpa pelo resto de seus dias se escolher por um aborto. Já pensou se o MC retratasse uma Helena que fez um aborto sim, ciente da escolha e lidasse de forma serena com isso, sem dramas ou dor?

    • Ah! E quanto a questão do Obama… Até os Estúdios Walt Disney irão lançar, em Dezembro desse ano, uma animação – A Princesa e o Sapo – em que a princesa é negra . Claro que a primeira heroína étnica (não branca) desenvolvida pela companhia surgiu no filme Aladim, em 1992. Era a personagem Jasmine que representava o Oriente Médio. Em 1995, Pocahontas trouxe a princesa indígena americana paras as telas. Em 1998, temos a chinesinha Mulan. Todavia, Tiana será a primeira princesa negra da Disney. Sim, sei que já se sabia desde 2007 sobre essa animação, mas creio ser interessante a “coincidência” de postergar desse modo um lançamento de cinema, cuja tendência é gerar milhões. De certa forma, eles tiveram mais tranquilidade acerca do faturamento das bilheterias quando do resultado das eleições dos EUA.

  3. Putz, Jux, tá feio o negócio, hein? Eu não vejo novela e mal vejo TV, mas vi parte dessa cena durante um comercial (acho que do Jornal Hoje, que o maridão me obriga a ver), e me pareceu o fim do fim. Eu fiquei imaginando o que essa tal de Helena fez pra ter que pedir perdão ajoelhada, e pra Lilian não perdoar. Ai, ai.
    Mas pelo pouco que sei, toda novela que se preza tem pelo menos uma cena por mês em que uma mulher apanha. Dá mais ibope quando outra mulher bate na mulher, mas pode ser o pai, irmão, o que for. E o pessoal sempre fica contra a mulher, lógico, que é pintada como víbora merecedora da surra.
    Ah, se eu escrevesse novela, iria basear um personagem em algum autor de novela e dar uns tapas nele…

  4. Não tenho acesso à TV Globo e o que sei sobre a cena da tal novela li em blogs. T. Araújo fez, há alguns anos, um papel de destaque e o título da novela era Da Cor do Pecado… o próprio título já botava a mulher negra em condição subalterna… o título poderia ter sido Da Cor do Amor… Da Cor Tropical… mas pecado???? qdo a atriz é negra????? aliás o título nem deveria carregar a palavra COR.

  5. eu assisti à cena INTEIRA!! sim, porque eu tive prova naquele dia na facul e cheguei mais cedo em casa, tava jantando com a tv ligada e tals… (justificativa!!)

    as acusações que a…. a…. a lília cabral fez foram absurdas, e a tapada da helena engoliu tudo, e ajoelhou! não existe gente tonta assim no mundo. só em novelas. a cena foi pesada e de muito mau gosto. o lance é que o autor da novela tem que mostrar que a heróina dele é virtuosa, pura, humilde, virgem, delicada e imaculada. aí ela passa a novela inteira ajoelhando e tomando na…. na cara! bom, no final ela dá a volta por cima e casa de branco, dá beijo na boca de um galã qualquer e vive feliz pra sempre!
    ai, ai… novelas….
    bom, não se pode negar que o clima casa grande-senzala foi péssimo! sei lá… eu deveria estar assistindo outra coisa, tipo… poder paralelo pra ver os italianos se matando!
    nossa, essa de colocar o nome da novela “da cor do pecado”… sem noção!
    afff…

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