Olhares daquela janela azul…

Mais um sinal vermelho…
Parada na primeira posição, aguardava no calor do carro que o sinal abrisse. Difícil o pai liberar o carro, nem sabia o que tinha dado no velho justo hoje. Definitivamente ela precisava de um carro. Não modelo 1000. Estes são meros meios de transporte.
Aquele sim era o carro. Quatro portas, vidros escuros. Bancos em pele bovina. Ar quente e frio, gelado.
Ainda mais naquela ilha úmida e chuvosa.
Chuvosa como naquela sexta-feira.

Saiu com as amigas para almoçar.
Foram ao shopping. Compras. Almoço. Mais compras. Sobremesa…
A Paulinhosa devia maneirar com doces: coitada, pensa que é como eu, uma sílfide.  Não vou negar, ela é uma sereia: metade mulher, metade baleia.Pobrezinha dela, espremeu-se toda para entrar naquela calça que ficou tão gostosa em mim.A Renatinha era outra que pensava ser a boa, mas longe disso. Cabelos e pele acabados. Ela estava acabada, apesar ter só vinte aninhos.
A Francinécia, a Veruskaléia, a Marileudes.
Todas idiotas e falsas.

Pensam que não sei que estão comigo porque vim de carro hoje.
Pois hoje eu vou de carro para casa.
Elas que esperem o fedido ônibus…

Sinal vermelho. Carro parado.

Um moço, molhado e cansado vende rosas de verdade: amarelas, vermelhas, rosas, champagne. Lindas e não eram caras.
Ela se mexe dentro do carro.
O moço se aproxima…
Pensa que poderá vender pelo menos uma flor… o dia foi tão fraco… como os outros… Mais um vagabundo fedorento… E fecha a o vidro automático. 

Abre um pacote de bolachas, pequenos e delicados quitutes de nata…
Se eu não parar de comer essas porcarias vou virar uma orca…
Fecha o pacote de bolachas, coloca inteiro o pacote no lixo.

Abre um envelope com fotos, recém retirado da loja.
Olha atenta para as fotos.
Um menino pequeno no jardim. Uma senhora de cabelos brancos numa varanda branca. Mais fotos do menino. Ela ajeita a posição de algumas fotos. Até que pára numa foto.
Ela está na foto. E, pela primeira vez, há tanto tempo, não está só…
Ela, sorri. Ao lado dela, um rapaz. Cabelos longos, sorriso sem dentes.
Tão sereno quanto às marolas que arrebentavam nas pedras do calçadão. Aquele rapaz, com o rosto colado ao dela.
Os braços a rodeavam, num abraço acolhedor…

O relógio parou…

O olhar daquele rapaz que a abraçava, protegendo-a do mundo e dela mesma…
Aquele olhar estava ali… Ali e somente ali…
Aquela sensação única  e tão desconhecida de proteção e amor estava ali, impressa…
E ali, para sempre ficou…
Assim como aquele rapaz…
Ele estava ali… Só e somente ali…
Em nenhum outro espaço poderia sentir aquele coração batendo junto ao dela novamente…

Levou a mão ao rosto rapidamente…

Verde…

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